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Afinado X Desafinado

“Se você disser que eu desafino, Amor,
Saiba que isso, em mim, provoca imensa dor.”
(Tom Jobim/ Newton Mendonça)
Sempre que alguém chama outro alguém de “desafinado” não faz idéia do tamanho do rombo que abre na personalidade do outro. Este texto bem poderia justificar o prefácio de um livro de auto-ajuda, pensarão alguns. Eu concordaria, se o livro se propusesse a discutir auto-estima e a baixa auto-estima.

Alguém grita na rua: “ô, gordo!”, “ô, careca!”, “ô, viado!” TUDO BEM! Nenhum problema. Porém, se disser “ô, desafinado!”, estará condenando o indivíduo, para todo o sempre, a SER desafinado! Pois muito bem: ninguém “é” desafinado… alguém pode “estar” desafinado, como um instrumento. E necessita ser afinado, certo?

Se Deus afinou os passarinhos e as ondas do mar, não tinha por que ser sacana justamente com o coitado que é chamado de desafinado! Acredito que esse “desequilíbrio” na afinação que se constata em alguém (e conheci inúmeros casos nos meus últimos trinta anos dando aulas de canto) deva-se ao fato de estas discriminações mexerem exatamente com o “chacra”(*) da comunicação. É através deste canal de energia, o “chacra” laríngeo, que o indivíduo se comunica com o mundo, através dele se coloca no mundo.

E justamente os “amigos”, que desconhecem os motivos pelos quais o indivíduo não consegue bem entoar (e por isso mesmo precisa “ser “afinado” novamente), ao invés de colaborar seja para ele encontrar seu melhor “tom”, seja para conseguir ouvir melhor, viram-se para o amigo e fazem a piadinha, achando que estão ajudando: “você gosta de canto? então vá lá pro canto!”

Ricardo Oliveira, mestre de Música Orgânica (ler QUEM PODE CANTAR?), sempre nos orienta em relação a observar de que é que alguém necessita pra ficar mais afinado. Eu acredito que a relação afinação-desafinação esteja diretamente relacionada com aprender a ouvir. Há uma famosa frase repetida ad-nauseam em corais: “Ouvir é mais importante do que cantar”.

 

(*) “chacras” – canais de energia reconhecidos pelos indianos, vórtices de energia que movimentam a vida no corpo físico do ser humano. Há vários livros, mormente da Editora Pensamento, São Paulo, que explicam o que são os “chacras” e como funcionam. Maude Salazar, em seu livro YOGA DA VOZ (**), dá um belo panorama de como funcionam esses chacras e como vibra nossa voz em cada um deles.

(**) YOGA DA VOZ, de Maude Salazar e Maudie Chiarini, Ed. Tahyu, 2007.

 

A Técnica do Canto

Trato aqui da questão da TÉCNICA NO CANTO, “aproveitando o mote” da produtora Nana Soutinho, em “discussão” internáutica com o Maestro Rênio Quintas:

Disse ela:“A técnica é muitíssimo importante para a preparação do artista. E ela deve ser tão bem apreendida, e o artista deve ser tão firme em sua técnica, que deve ser imperceptível ao público qualquer tipo de preocupação neste sentido. Ou seja: ter técnica é ser seguro dela a ponto de nem se lembrar de nada a respeito [da técnica] na hora da apresentação.”

Eu entro na discussão: a técnica passa a fazer parte do acervo de ferramentas do cantor. Como se, automaticamente, tudo fosse saindo, sem querer, querendo. O caminho já está preparado e a voz desliza por ele, como se nenhum esforço fosse necessário para isso. Como o rio por seu leito natural.

Repetindo a frase de Nana: “a ponto de nem se lembrar de nada a respeito [da técnica] na hora da apresentação.”

Continuo: a técnica faz parte do trabalho do artista (ou de qualquer outro profissional) “como uma luva”. É ela que veste o artista para que use e abuse dela, de forma que permeie seu corpo na medida justa em que dela necessite. Alguns dirão “então é como um enchimento”. Mais ou menos o mesmo.

Nas aulas e oficinas de canto, busco iniciar cada encontro com um aquecimento diferente. É este aquecimento que garantirá aos alunos um bom desempenho durante todo o processo. Eu os oriento para que usem como quiserem esses momentos iniciais, atentos a quais e que tipos de aquecimento os ajudam mais, para usá-los no treino diário, todos os dias da vida, percebendo o que melhor se encaixa em seu trabalho pessoal. (ler QUE EXERCÍCIOS FAZER?)

A partir daí, e dos demais exercícios que aparecem no trabalho, os alunos passam a encontrar em si mesmos as respostas formais que querem dar a seu canto, em função do que querem dizer cantando. E aqueles simples degrauzinhos, a que chamamos de técnica, irão facilitar e embasá-los, a fim de que dêem seus próximos passos cantantes, da escolha de repertório à chegada no palco.

E, quando estiverem cantando, lá também estará a técnica, às vezes até sem se darem conta, apoiando-os e auxiliando-os a colocar para fora sentimento e emoção em forma de canção.

Que exercícios fazer?

Cada ser é uma unidade e age de acordo com suas necessidades. Por isso, busco passar para aos alunos a revolução que se deu comigo mesmo, já que estudei em conservatório musical tradicional e só depois fui-me abrindo para a música.

Lembro minha grande mestra de piano, Marina da Gama Cerqueira, dizendo com todas as letras: “estude escalas se na música que for tocar houver escalas…” Aplicando-se ao canto, significa fazer com a voz determinado ritmo ou melodia, caso apareçam na canção. Se não, para quê?!

Igualmente, cada aquecimento que o aluno aprender deverá ser acrescentado a seu repertório se o beneficiar. O professor é e sempre será um grande indicador de caminhos, nunca um censor. E o que servir será utilizado.

Tenho um amigo que acha importantíssimo um gole de água “gelada” antes de entrar no palco e outro que dá uma tragada num cigarro. Do mesmo modo que há gente que chupa gelo, há gente que reza, gente que dá três batidinhas na madeira e gente que alisa prego costurado na barra do vestido. Cada um tem suas crendices, seu modus operandi, sua “tecnologia”. Cada um deve descobrir a sua. E no momento que dela se utilizar, a voz estará sendo preparada para o canto.

IMPORTANTE: Não se deve fazer determinado exercício apenas porque “alguém” o faz. O ideal é sentir o quanto ele pode fazer bem, para onde ele orienta e como conduz a um resultado satisfatório.

O “vocalise” (ler POR ONDE COMEÇAR?), ou qualquer outro trabalho vocal a se fazer, sempre deverá estar de acordo com a real necessidade da pessoa naquele momento e com sua capacidade. Buscar o facilitador** ou o professor de canto pode ser benéfico: eles deverão auxiliar no que for necessário.

(**) Nome empregado por Ricardo Oliveira, para designar o orientador, nas Oficinas Básicas de Música Orgânica (OBMO).

Certo ou Errado?

A estética não divide o mundo em certo e errado. Quem o faz é a ética!

Você já fez crochê? Tente, até aprender. E, depois, faça, sem medo de errar. Cada ponto que “erra” é um ponto diferente que acaba de inventar. Mesmo que você não goste do que fez…

Lembra-se da regra número I? Lá vai: Não há regras! (Leia POR ONDE COMEÇAR?)

Todo o conhecimento artístico europeu ganha outras dimensões quando visto daqui do hemisfério sul. Certamente, as maiores contribuições musicais que recebemos não vêm só do hemisfério norte, nem só da Europa. Essa visão é “conservatorial”. O pentagrama tradicional (aquele das cinco linhas e quatro espaços) não serve para registrar grande parte da música que se faz pelo planeta afora. Praticamente, nada da música oriental cabe na escrita européia, ainda que os japoneses o consigam, muitas vezes (depois de Hiroshima e Nagazaki, o que é que eles não conseguem?!).

Mesmo assim, há quem jure, por esse Brasilzão a dentro, que só é músico quem sabe ler “aquelas bolinhas”. Viaje um pouco, dê uma ouvida no que se faz pelos interiores, pequeninas cidades com um “turbilhão” de músicos de primeira. Tocando muito, do jeito que aprenderam por lá. Evidentemente que não lêem partitura. Quer aprender a ler partitura? Tudo bem. Mas lembrando sempre que “nota musical não é música, partitura não é música; você é!”. Ricardo Oliveira coloca muito bem isso em seu livro (leia QUEM PODE CANTAR).

Quando se começa a tomar contato com culturas diferentes da européia, a tradicional, a primeira impressão é que estamos viajando para fora do planeta. Claro! Afinal, sempre nos ensinaram que o que sabemos é tudo o que existe… verdade única e absoluta. E o conhecimento do índio, por exemplo, em que escaninho colocar sua cultura?

Quando alguém resolve cantar, deve tomar contato com o mundo sonoro que o cerca e buscar sua identificação com a música que melhor lhe bate no peito. Não adianta querer forçar nenhuma barra. Ou buscar a música “que está na moda” ou “que dá dinheiro”. Aí já não estaremos mais falando de música, certo? Evidentemente que o conhecimento musical que se tem em volta vai ajudar a caminhar. Mas não se deve deixar que ele seja mais importante do que o DESEJO DE FAZER MÚSICA, que, isso sim, é o que importa!

Por onde começar?

Cantar se aprende cantando. Para isso, é fundamental lembrar-se da única e importantíssima regra: NÃO HÁ REGRAS!!!

Mas, como toda regra tem exceção, a exceção é: NUNCA FORÇAR NADA!!

Juntando uma coisa com a outra: VALE TUDO, DESDE QUE NÃO SE FORCE NADA!!!

Devemos prezar nosso instrumento, as pregas vocais (chamadas de cordas vocais), por sua sensibilidade e delicadeza. São músculos e vão funcionar bem se deles cuidarmos corretamente. Se falharmos, poderão também falhar conosco. Temos que saber exatamente do que é que eles precisam. E, se não há como saber sozinho, pede-se a ajuda de um profissional da área.

Faremos vocalise(*), se necessário. Gargarejo, idem.

Certo dia, uma aluna que faria uma apresentação me perguntou: “A que horas devo tomar o sorvete?…” “Que sorvete?!”, perguntei. “Aquele que o Pavarotti toma…” Ela havia lido que Pavarotti toma sorvete. “Resta saber se é para cantar. Tente saber isso com certeza e talvez possa ajudar.” Há estudiosos que afirmam que as cordas vocais, quando pouco irrigadas pelo sangue, produzem melhor sonoridade. Faz sentido, portanto, tomar algo frio antes de cantar, porque, durante ou depois, acho que só poderia prejudicar. Mas não diga ao “negão” da Escola de Samba que gelado faz mal, pois é capaz de ele ficar rouco a partir de então com as cervejas que alterna com seu cantar!!!

Fisiologicamente, quando se tem pouca irrigação, o metabolismo local também diminui, de forma a ficar a região mais propensa a inflamações. Além disso, o maior problema do gelado ou do quente é o “choque térmico”, isto é, se a pessoa estiver com o corpo quente e tomar algo gelado, ou vice-versa, pode ser “ruim”. Portanto, o mais importante é não agredir o corpo ingerindo coisas completamente fora da temperatura em que ele se encontra. Como cada um sabe onde lhe dói o calo, deve-se sempre ficar atento ao próprio organismo e ir descobrindo o que é bom e o que é ruim para si mesmo.
(*) Exercício de canto, em que se utilizam as vogais para percorrer as notas da escala, subindo e descendo com a voz, saltando de uma nota a outra.
Deixo claro que cantar, para mim, já é exercício, e que fazer exercício de canto já é cantar!

Que escola seguir?

Certa vez, numa mesa-redonda, fui acusado de improvisador por alguns “nobres colegas”, que me cobravam explicações do porquê de eu agir de forma mais intuitiva, menos convencional, mais “de dentro para fora”. Sempre buscando observar como é que cada pessoa canta, para só então interferir e sugerir o caminho que ela deva seguir.

Perguntaram sobre meu estilo, reclamaram de minha postura, queriam saber que escola eu seguia. Acuado (há momentos na vida em que as pessoas querem ver um diploma pendurado em sua testa), respondi: “A Escola de Samba!”

Nesse exato momento comecei a prestar mais atenção e a perceber que, na Escola de Samba, o “negão” sai do início da avenida numa escola, canta até o final do sambódromo, volta correndo e pega a seguinte, e assim por diante, a noite toda e, ó: só na cerveja gelada… Conte isso a um europeu, conte!!!

Eu conto essas histórias, mas também quero ouvir as suas. Daquelas do tipo em que o seu “melhor” amigo vira e pergunta: “Você gosta de canto? Então por que não fica ali naquele canto?!”

Quem pode cantar?

Em 1972, comecei a trabalhar com canto. Tinha, na época, a preocupação de dizer, a todos os que me procuravam, que é possível cantar, independentemente de conhecimento musical anterior, ou o que quer que seja. Buscava mostrar, com cuidado, aos alunos que apresentavam maior dificuldade, que certamente avançariam, desde que tivessem esforço e paciência. A persistência os conduziria aonde quisessem. Era fundamental apenas que entendessem que “todo o mundo pode cantar”.

O tempo passou, aumentando a preocupação e o cuidado. Fui percebendo, aos poucos, e com intensidade, que o povo sempre tem razão. Se inventou o famoso ditado “Quem canta seus males espanta!”, é porque “todo o mundo DEVE cantar!”

Alguns têm mais facilidade do que outros, por terem logo de início um ambiente facilitador, que lhes dá um empurrão, como um meio musical ou uma família de músicos; cito sempre a Sandy e seu mano, cujos avós já cantavam. Outros, pelo fato de terem a voz um pouco diferenciada, “rouca”, mais grave, mais sei-lá-o-quê, acabam sendo colocados de escanteio, como ovelhas negras do grupo em que cantam. Mas, com trabalhos de percepção musical e persistência, todos podem chegar a cantar. E muito bem!

Ricardo de Oliveira, que, felizmente, apareceu para nos redimir, deixa claro que “temos que ser afinados conosco mesmos, com o ser humano, a natureza, o cosmos” (v. “Música, Saúde e Magia”, ed. Record/Nova Era, 1996). Ele contrapõe o que chama de música orgânica à música mecânica… Não temos que nos afinar por um piano ou um violão!

Gilda Vandenbrande, que há mais de vinte anos faz teatro e música para espetáculos teatrais, assegura: “Quem fala canta!” (este é o nome de sua Oficina de Voz e Canto).