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Certo ou Errado?

A estética não divide o mundo em certo e errado. Quem o faz é a ética!

Você já fez crochê? Tente, até aprender. E, depois, faça, sem medo de errar. Cada ponto que “erra” é um ponto diferente que acaba de inventar. Mesmo que você não goste do que fez…

Lembra-se da regra número I? Lá vai: Não há regras! (Leia POR ONDE COMEÇAR?)

Todo o conhecimento artístico europeu ganha outras dimensões quando visto daqui do hemisfério sul. Certamente, as maiores contribuições musicais que recebemos não vêm só do hemisfério norte, nem só da Europa. Essa visão é “conservatorial”. O pentagrama tradicional (aquele das cinco linhas e quatro espaços) não serve para registrar grande parte da música que se faz pelo planeta afora. Praticamente, nada da música oriental cabe na escrita européia, ainda que os japoneses o consigam, muitas vezes (depois de Hiroshima e Nagazaki, o que é que eles não conseguem?!).

Mesmo assim, há quem jure, por esse Brasilzão a dentro, que só é músico quem sabe ler “aquelas bolinhas”. Viaje um pouco, dê uma ouvida no que se faz pelos interiores, pequeninas cidades com um “turbilhão” de músicos de primeira. Tocando muito, do jeito que aprenderam por lá. Evidentemente que não lêem partitura. Quer aprender a ler partitura? Tudo bem. Mas lembrando sempre que “nota musical não é música, partitura não é música; você é!”. Ricardo Oliveira coloca muito bem isso em seu livro (leia QUEM PODE CANTAR).

Quando se começa a tomar contato com culturas diferentes da européia, a tradicional, a primeira impressão é que estamos viajando para fora do planeta. Claro! Afinal, sempre nos ensinaram que o que sabemos é tudo o que existe… verdade única e absoluta. E o conhecimento do índio, por exemplo, em que escaninho colocar sua cultura?

Quando alguém resolve cantar, deve tomar contato com o mundo sonoro que o cerca e buscar sua identificação com a música que melhor lhe bate no peito. Não adianta querer forçar nenhuma barra. Ou buscar a música “que está na moda” ou “que dá dinheiro”. Aí já não estaremos mais falando de música, certo? Evidentemente que o conhecimento musical que se tem em volta vai ajudar a caminhar. Mas não se deve deixar que ele seja mais importante do que o DESEJO DE FAZER MÚSICA, que, isso sim, é o que importa!

Faz bem ou faz mal?

Água, cantor toma água! Essa dica é da cantora e professora de canto Eliete Negreiros. Comer maçã também é bom. Lembram-se de como Eva cantava no paraíso?! SEM CASCA!!! (a maçã…) Apesar de, na casca, concentrar-se o maior número de nutrientes. Claro, é para a “casquinha” não parar lá “naquele lugarzinho” (seios periformes é seu nome).

Sabe, aquele pigarro? Eudosia Acuña Quinteiro também sugere, do alto de seus muitos anos de atriz e de doutorado em fonoaudiologia e preocupação com a voz do ator: água, muita água. Nem muito fria, nem muito quente! Aquela que sai do filtro ou da bica, na temperatura ambiente, desde que não seja no inverno.

Há uma infindável lista de coisas que podem irritar, incomodar e até prejudicar as cordas vocais. Depende da pessoa. Há quem tenha alergia a determinados alimentos, interferindo na voz. Café faz-lhe mal? Não o tome. Muitas vezes não prestamos atenção a nós mesmos, delegando os poderes ao médico da família, sem saber que o ajudaríamos, e muito, se observássemos o que botamos para dentro. Ou para fora…

E açúcar? E laticínios (queijo, iogurte, etc.)? Chocolate? Álcool? Cigarro? Pão? (Tudo o que é feito de farinha vira cola quando ingerido; é como colar cartazes na rua. Se algumas pessoas conseguem expelir o que não lhes convém ao organismo, outras retêm uma quantidade que daria para colar um “outdoor”…)

Como limpar o muco acumulado? Água, chá de raiz de lótus (e não precisa ir à China ou ao Japão, há na loja de produtos naturais, ali na esquina), chá de “habu” – sementes de capim-fedegoso (idem, idem) e alcaçuz. Coisas que limpam os pulmões sem sujar nada do resto. E NUNCA pigarrear ou tossir para tirar o “pigarro” (principalmente depois de ter iniciado o aquecimento vocal).

“- Mel é bom?” “- Depende.” “Mas não é natural?!” Meu mestre de Do-In, Juracy Cançado, dizia: “Terremoto também é natural, cicuta…” E completava: “Bom para quê? quando? para quem?!” A homeopatia aconselha o mel para expectoração. Mas já vi uma cantora quase não entrar em cena, com uma bola de mel atravessada na garganta…

Gengibre é bom? Adstringente é. Num dos meus grupos vocais, depois de três dias chupando bala de gengibre para “melhorar a garganta”, uma cantora percebeu que o gengibre irritava suas cordas vocais, deixando-a ainda mais rouca. Eu descobri que o “pólen”, aquele gostosinho, vendido em casas de produtos naturais, energético e tudo o mais, depositado na colméia pelas abelhas, é capaz de me deixar totalmente afônico. E já vi muita gente ficar sem voz pelo uso do “própolis”, produto natural, também fabricado pelas abelhas, que utilizo com freqüência e que não me causa mal algum.

Berta Lange, sapientíssima mestra com quem toda uma geração de atores e atrizes paulistas muito aprendeu nos anos 70s, recomendava gargarejo com meio copo de água tépida e uma pitada de sal, a fim de cessar aquela pequena rouquidão que às vezes nos acomete.

 

ATENÇÃO: Se você tiver outros conhecimentos, outras informações, outras dicas, discuta com as pessoas, cheque sua veracidade com os profissionais da área, e só depois passe-os adiante. Todos os cantores (e todas as pessoas) ficarão muito agradecidos. Cuidado para não pegar informações pela metade, nem experimentar “dar aulas” sobre algo de que você mal sabe o nome… Deixe a Medicina para os médicos, mesmo que não acredite neles (seja qual for sua formação). Ou vá estudar Medicina. Seja de que natureza for. Ou VOZ!

Que escola seguir?

Certa vez, numa mesa-redonda, fui acusado de improvisador por alguns “nobres colegas”, que me cobravam explicações do porquê de eu agir de forma mais intuitiva, menos convencional, mais “de dentro para fora”. Sempre buscando observar como é que cada pessoa canta, para só então interferir e sugerir o caminho que ela deva seguir.

Perguntaram sobre meu estilo, reclamaram de minha postura, queriam saber que escola eu seguia. Acuado (há momentos na vida em que as pessoas querem ver um diploma pendurado em sua testa), respondi: “A Escola de Samba!”

Nesse exato momento comecei a prestar mais atenção e a perceber que, na Escola de Samba, o “negão” sai do início da avenida numa escola, canta até o final do sambódromo, volta correndo e pega a seguinte, e assim por diante, a noite toda e, ó: só na cerveja gelada… Conte isso a um europeu, conte!!!

Eu conto essas histórias, mas também quero ouvir as suas. Daquelas do tipo em que o seu “melhor” amigo vira e pergunta: “Você gosta de canto? Então por que não fica ali naquele canto?!”

Quem pode cantar?

Em 1972, comecei a trabalhar com canto. Tinha, na época, a preocupação de dizer, a todos os que me procuravam, que é possível cantar, independentemente de conhecimento musical anterior, ou o que quer que seja. Buscava mostrar, com cuidado, aos alunos que apresentavam maior dificuldade, que certamente avançariam, desde que tivessem esforço e paciência. A persistência os conduziria aonde quisessem. Era fundamental apenas que entendessem que “todo o mundo pode cantar”.

O tempo passou, aumentando a preocupação e o cuidado. Fui percebendo, aos poucos, e com intensidade, que o povo sempre tem razão. Se inventou o famoso ditado “Quem canta seus males espanta!”, é porque “todo o mundo DEVE cantar!”

Alguns têm mais facilidade do que outros, por terem logo de início um ambiente facilitador, que lhes dá um empurrão, como um meio musical ou uma família de músicos; cito sempre a Sandy e seu mano, cujos avós já cantavam. Outros, pelo fato de terem a voz um pouco diferenciada, “rouca”, mais grave, mais sei-lá-o-quê, acabam sendo colocados de escanteio, como ovelhas negras do grupo em que cantam. Mas, com trabalhos de percepção musical e persistência, todos podem chegar a cantar. E muito bem!

Ricardo de Oliveira, que, felizmente, apareceu para nos redimir, deixa claro que “temos que ser afinados conosco mesmos, com o ser humano, a natureza, o cosmos” (v. “Música, Saúde e Magia”, ed. Record/Nova Era, 1996). Ele contrapõe o que chama de música orgânica à música mecânica… Não temos que nos afinar por um piano ou um violão!

Gilda Vandenbrande, que há mais de vinte anos faz teatro e música para espetáculos teatrais, assegura: “Quem fala canta!” (este é o nome de sua Oficina de Voz e Canto).