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Eu e meu microfone

Da primeira vez que ouvi minha voz ao microfone, logo que abri a boca comecei a olhar pela sala: de quem seria a bendita voz que cantava comigo, juntinho, aquela música que só eu conhecia?

A grande maioria dos que vem à procura de soluções para seus “males cantantes” traz consigo uma história de desastres com o microfone, com o gravador, com a parte tecnológica que nós, cantores, mais dia, menos dia, temos de enfrentar…

Quando ouvimos nossa voz, ao falar ou cantar sem o uso da eletrônica, aprendemos a “reconhecer” nossa voz com os dois componentes com que ela se apresenta para cada um de nós: o componente externo, a voz que entra pelos ouvidos, a que todos ouvem, e o componente interno, a voz que ouvimos “aqui dentro da nossa cabeça”, este componente de nossa voz que ninguém mais ouve em todo o universo, além de cada um de nós mesmos.

Ao colocarmos a boca no microfone, o que se dá? Amplificamos o componente externo, o que faz com que “encubramos” o componente interno, passando a ouvir fortemente aquilo que todos os outros ouvem da nossa voz, deixando de perceber o outro componente que, por anos e anos da nossa vida, foi coadjuvante deste que ouvimos agora, quase protagonista, que é o que todos ouvem da nossa voz. De repente, o rito de passagem: de voz natural a voz microfonada. E nada mais será como antes…

Sugiro aos que me procuram que comprem um microfone ou um gravador e comecem a gravar, gravar, gravar e ouvir, ouvir, ouvir. Claro que não é tão simples assim, mas chega uma hora em que você começa a identificar “naquela voz estranha” a mesma que ouviu por anos a fio sem microfone. É parecido com aprender a ser fotografado ou filmado; no início, um desastre, pois não reconhecemos, naqueles vídeos e fotos, a cara companheira que durante anos aprendemos a olhar no espelho. Demora um pouco para perceber que a fotografia ou o filme mostra nosso rosto ao contrário, “do avesso”. Tudo o que é do lado direito vai parar do outro lado e vice-versa. A sobrancelha, mais para cima, o lábio, mais para baixo, aquela cicatriz no supercílio, tudo que troca de lado aparece ainda mais. Depois de um tempo começamos a fazer foco e a nos reconhecer naquele rosto todo trocado de lugar. Com a voz vai se dar algo muito parecido…

“Alô, alô, testando, um dois três…”